EDITORIAL | Semana Mundial dos Erros Inatos da Imunidade: Mortalidade é pelo menos duas vezes maior nesse grupo de pacientes

EDITORIAL | Semana Mundial dos Erros Inatos da Imunidade: Mortalidade é pelo menos duas vezes maior nesse grupo de pacientes

Desde 2011, anualmente, comemoramos a Semana Mundial das Imunodeficiências, sempre na última semana de abril. Trata-se de uma iniciativa de diferentes entidades ligadas às imunodeficiências ou erros inatos da imunidade: ASID (African Society for Immunodeficiencies), CIS (Clinical Immunology Society), EFIS (European Federation of Immunological Societies), ESID (European Society for Immunodeficiencies), INGID (International Nursing Group for Immunodeficiencies), IPOPI (International Patient Organisation for Primary Immunodeficiencies), JMF (Jeffrey Modell Foundation) e LASID (Latin American Society for Immunodeficiencies).

O objetivo é realizar eventos que sirvam para alertar sobre esse grupo de doenças e assim melhorar seu diagnóstico e tratamento. O material de divulgação é disponibilizado em www.worldpiweek.org, e a ASBAI, por meio de seu Departamento Científico (DC) de Imunodeficiências, procura participar da iniciativa estimulando a realização de atividades com pacientes, leigos e diversas especialidades médicas.

Em 2020, no aniversário dos 10 anos da iniciativa, as comemorações se estenderam de 22 de abril até 1º de julho; e, diante da pandemia, esteve focada na COVID-19. A campanha de 2021 propõe três focos para nortear as atividades propostas: disponibilidade de plasma, vacinação e qualidade de vida.

Não nos é possível deixar de inserir os tópicos acima no contexto da COVID-19 diante da situação dramática de pandemia que o mundo ainda vive, particularmente em nosso país, com crescimento exponencial do número de casos e mortes e lento processo de imunização contra o SARS-CoV-2.

Há mais de um ano, estávamos lidando com o fornecimento irregular de imunoglobulina humana. ASBAI, SBP, BRAGID e associações brasileiras de pacientes estiveram em contato com o Ministério da Saúde, alertando sobre as graves consequências da falta desse precioso imunobiológico para os imunodeficientes. Infelizmente, o que se avista, pela queda mundial na captação de plasma, é que teremos falta do produto no mundo inteiro.

A situação do Brasil é particularmente complicada, pois não temos sistema de captação de plasma para produção nacional da imunoglobulina — nem a partir de sangue total doado, nem a partir de doação específica de plasma. O produto é 100% importado e a Hemobrás está parada há anos.

Pacientes com erros inatos da imunidade (EII) estão incluídos no grupo com prioridade de aplicação das vacinas disponíveis. As vacinas em uso são absolutamente seguras em pacientes com EII, mas sabemos que muitos pacientes podem não responder adequadamente a elas. Por conta disso, em março de 2021, o DC de Imunodeficiências da ASBAI enviou carta ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) solicitando a inclusão de indivíduos que convivem com pacientes imunodeficientes no grupo prioritário de vacinação contra a COVID-19, como forma de garantir maior proteção.

Importante lembrar também que as vacinas ainda não se encontram liberadas para crianças, porém, estudos de segurança e eficácia nas faixas etárias de crianças e adolescentes avançam e acreditamos que a liberação ocorra em breve. Apesar das reconhecidas capacidade e experiência do PNI, a demora na compra e entrega dos imunizantes tem impedido que o processo de imunização ocorra na velocidade desejada e necessária para o controle da circulação do SARS-CoV-2 entre nós.

Muito difícil falar sobre promoção de qualidade de vida — tanto de nossos pacientes quanto de nós, médicos — diante do contexto que estamos vivendo, especialmente no Brasil. Acreditamos que a medida mais relevante nesse sentido seja nos manter informados e informar e apoiar nossos pacientes.

Não há evidências de que indivíduos com diagnóstico de algum EII apresentem maior risco de infecção pelo SARS-CoV-2. Mas pesquisas realizadas até o momento — inclusive uma brasileira já submetida para publicação, mas ainda em processo de revisão — têm demonstrado que a mortalidade é pelo menos duas vezes maior nesse grupo de doentes em relação à população em geral.

É esse o cenário que precisamos enfrentar. Dramático, sem sombra de dúvida, mas devemos procurar enfrentá-lo enfatizando diuturnamente com nossos pacientes e colegas sobre a necessidade de manter as medidas de distanciamento social, uso de máscaras, medidas de higiene das mãos e a relevância das vacinas. Sejamos todos apoio e fonte de informação científica de qualidade aos nossos pacientes e colegas.

 

 

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