Boletim ASBAI Edição Nº 58 | EDITORIAL | Agrotóxicos: nosso sistema imune e a saúde nos importam?

Boletim ASBAI Edição Nº 58 | EDITORIAL | Agrotóxicos: nosso sistema imune e a saúde nos importam?

Agrotóxicos são definidos como produtos químicos sintéticos usados para eliminar insetos, larvas, fungos, carrapatos e ainda regular o crescimento da vegetação. Tem-se tornado, no entanto, um dos principais focos de estudos da comunidade científica, pois podem resultar em sérios agravos à saúde humana e ambiental.

Após a aplicação dos agrotóxicos por tratores ou aviões, uma pequena fração atinge as “pragas” nas plantas, demandando, por outro lado, uma grande parte ao solo, às águas superficiais, ao ar e à chuva, além de deixar inúmeros resíduos nos alimentos do nosso consumo²,⁴.

A exposição aos agrotóxicos pode causar uma série de doenças, dependendo do produto que foi utilizado, do tempo de exposição e quantidade de produto absorvido pelo organismo. Os principais afetados são aqueles mais diretamente em contato, podendo-se citar os agricultores, agentes de controle de endemias (ACE), trabalhadores das indústrias de agrotóxicos e toda a população suscetível a exposições múltiplas a agrotóxicos, destacando-se o consumo de alimentos e água contaminados₁,². Pesquisas com modelos animais mostraram que doses baixas de organofosforados foram capazes de induzir hiper-reatividade da via aérea³.

Na África do Sul, mulheres expostas aos agrotóxicos apresentaram sete vezes mais chances de terem filhos com determinadas malformações congênitas que mulheres não expostas a essas substâncias.

No Brasil, observa-se em Mato Grosso, região de alta produção agrícola, que as internações por câncer infan­tojuvenil no hospital de referência do estado têm pre­valência de pacientes oriundos de regiões com altas produções agrícolas.

Outro estudo nacional aponta que agrotóxicos de diferentes classes químicas, principalmente organoclorados, têm sido encontrados em leite materno de mães residentes em localidades próximas às regiões de intensas atividades da agropecuária, sendo um alerta para as entidades de vigilâncias sanitárias.Parte superior do formulário

 

Parte inferior do formulário

Valores  elevados de diclorofenol na urina de pacientes estão associados a níveis séricos elevados de IgE, sendo que esses agrotóxicos, usados ​​como pesticidas e  cloração da água, estão associados à presença de sensibilização a alimentos, contribuindo, dessa forma, para o aumento da incidência de alergias alimentares nas sociedades ocidentais⁵,⁶.

Em relação à doença asmática, um estudo de associação de crianças com asma não controlada e residindo em proximidades de regiões da lavoura em determinada região brasileira foi justificada pela ação de diversos agrotóxicos, destacando-se os carbamatos, que estimulam os receptores muscarínicos e consequente broncoconstrição².

Diante da crescente utilização dos agrotóxicos com repercussões no ecossistema, a busca por uma agricultura sustentável que promova a saúde e preservação da biodiversidade, nos importam!

 

Departamento Científico de Biodiversidade, Poluição e Alergias

 

Bibliografia:

  • Rodrigues, B.R.; Chong Neto, H.J.; Associação entre Exposição a Agrotóxicos e Doenças em Crianças e Adolescentes, Biblioteca Digital de Eventos Científicos da UFPR,II Congresso de Saúde Coletiva da UFPR,
  • Danielly C. A. et all Simultaneous determination of different classes of pesticides in breast milk by solid-phase dispersion, Braz. Chem,  P. 25 28, 2014.
  • Curvo,H.R.M.Wanderlei; Pignati, A.; Pignatt,M.G., Morbimortalidade por câncer infantojuvenil associada ao uso agrícola de agrotóxicos no Estado de Mato Grosso, Brasil, Cad. saúde colet. V.21, 2013.
  • Annals of Allergy, Asthma/ Immunology, Elsevier,V. 114, Ed. 3, 2015,  170-172.
  • Elina Jerschow et alli. Dichlorophenol-containing pesticides and allergies: Results from the US National Health and Nutrition Examination SurveyAnnals of allergy, asthma & immunology, P 420-425, 2012